
Presidente brasileiro participa do fórum em Évian-les-Bains buscando ampliar diálogo internacional e defender interesses do Sul Global
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou sua participação oficial no G7, em Évian-les-Bains, França, enfrentando o desafio de posicionar o Brasil em um cenário dominado por crises internacionais e tensões bilaterais com os Estados Unidos e a União Europeia.
Nesta terça-feira (16), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu início à sua participação no Fórum do G7, que reúne as sete maiores economias industrializadas do mundo, em Évian-les-Bains, na França. Convidado pelo anfitrião Emmanuel Macron, Lula busca ampliar o protagonismo do Brasil no cenário global, em meio a um contexto marcado por conflitos internacionais e desafios diplomáticos. O encontro ocorre em um momento delicado para as relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos, especialmente após a possibilidade anunciada por Washington de impor uma taxa extra de 25% sobre algumas importações brasileiras. Apesar da presença simultânea dos presidentes Lula e Donald Trump no evento, não há confirmação de reunião bilateral entre eles, e interlocutores brasileiros indicam que o governo não solicitou um encontro privado com a Casa Branca. A expectativa é que os dois possam se encontrar informalmente durante as sessões ampliadas ou nos corredores do fórum. Além do desafio de captar a atenção do presidente americano, Lula também enfrenta a necessidade de dialogar com a União Europeia, que recentemente oficializou um veto à importação de carnes, tripas, peixes e mel produzidos no Brasil, medida que entrará em vigor em 3 de setembro. A pauta será abordada em reunião bilateral prevista para esta terça-feira com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu, atendendo a um pedido dos europeus. Na segunda-feira, Lula já havia se reunido com Macron para tratar de cooperação em defesa, tecnologia e expectativas para a cúpula. O presidente brasileiro destacou que o fórum representa uma oportunidade para o Brasil defender o Sul Global, reafirmar seu compromisso com a paz, o multilateralismo, o desenvolvimento sustentável e a justiça global. O contexto internacional, entretanto, está centrado em outras prioridades que podem dificultar a inserção das pautas brasileiras. Os conflitos no Irã e na Ucrânia dominam a agenda global. Na noite de domingo (14), EUA e Irã anunciaram um acordo preliminar de paz, com assinatura prevista para 19 de junho, o que pode influenciar as discussões no G7. Especialistas apontam que Donald Trump deve usar o fórum para destacar esse avanço e pressionar a Europa a aumentar seu apoio militar aos EUA no Oriente Médio. Além disso, há preocupação com os impactos econômicos da guerra, como a segurança energética, a produção de fertilizantes e a segurança alimentar, temas que também ganham relevância na cúpula. A União Europeia, por sua vez, busca maior protagonismo na ajuda à Ucrânia, pressionando os EUA, especialmente após a suspensão da assistência militar americana ao governo de Volodymyr Zelensky no ano passado. O G7 também enfrenta uma crise interna, com relações transatlânticas fragilizadas, principalmente entre os EUA, Canadá e Reino Unido, o que dificulta a construção de consensos. A presença do Brasil, apesar de importante, não altera esse cenário de fragmentação. No âmbito das relações Brasil-EUA, fontes indicam que temas como a taxação e a designação das facções criminosas Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas não estão na agenda do fórum. Por outro lado, a questão do veto europeu à carne brasileira poderá ser discutida com representantes da UE, embora especialistas considerem improvável uma reversão rápida da medida. Segundo o secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério das Relações Exteriores, Philip Fox-Drummond Gough, o governo brasileiro manifestou surpresa e preocupação com a decisão europeia, que está relacionada a exigências sanitárias não comprovadas pelo Brasil, especialmente sobre o uso de medicamentos antimicrobianos na cadeia produtiva. A medida é vista também como uma reação política da agricultura europeia após a entrada provisória do acordo Mercosul-UE em maio. Apesar dos desafios, a participação do Brasil no G7 abre espaço para outras negociações e reivindicações fora do eixo EUA-UE. Lula tem reuniões bilaterais agendadas com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, e com o primeiro-ministro do Egito, Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, além de participar de sessões sobre solidariedade internacional aos países em desenvolvimento, crescimento econômico equilibrado e governança global. O presidente brasileiro deve defender a ampliação da Assistência Oficial ao Desenvolvimento (AOD) e reformas em instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Organização das Nações Unidas (ONU). Outro destaque será a participação em um almoço sobre Inteligência Artificial, com representantes da indústria tecnológica, onde o Brasil pretende influenciar o debate para evitar que o tema seja dominado por países do Norte Global e pela China. O governo também busca maior regulação das empresas do setor tecnológico, apresentando avanços brasileiros no Marco Civil da Internet como exemplo. A França pretende ainda assinar um acordo sobre a diversificação das cadeias de minerais críticos, tema de interesse do Brasil, que busca industrializar o setor para agregar valor às suas exportações. No entanto, o governo brasileiro ainda avalia o alinhamento do texto proposto com sua visão de cooperação internacional. Em sua décima participação no G7, Lula enfrenta o desafio de destacar o Brasil em meio a um cenário global complexo, mas aposta na ampliação de diálogos multilaterais e na defesa dos interesses do Sul Global para fortalecer a presença do país no fórum.
Contexto
O G7 é um fórum que reúne Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália, Alemanha e Japão, com a União Europeia como membro institucional. Em 2026, o evento ocorre em Évian-les-Bains, França, e conta com convidados como Brasil, Ucrânia, Índia, Quênia, Coreia do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos e Catar. A participação do Brasil, convidado pelo presidente francês Emmanuel Macron, ocorre em meio a tensões comerciais com os EUA e restrições europeias às exportações brasileiras. O fórum acontece em um momento de conflitos internacionais, especialmente no Irã e Ucrânia, e de desafios para a governança global, temas que dominam a agenda dos líderes presentes.