Presidentes do Brasil e México reafirmam defesa da não interferência estrangeira em meio a tensões com EUA
Em videoconferência, líderes discutem cooperação bilateral, apoio a Michelle Bachelet na ONU e desafios diante da política comercial americana.
Em videoconferência, líderes discutem cooperação bilateral, apoio a Michelle Bachelet na ONU e desafios diante da política comercial americana.
Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Claudia Sheinbaum realizaram uma videoconferência nesta quarta-feira (10) para reafirmar a importância do respeito à soberania nacional e ao multilateralismo, em meio a recentes medidas tarifárias propostas pelos Estados Unidos contra Brasil e México.
Nesta quarta-feira (10), o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e a presidente do México, Claudia Sheinbaum, mantiveram uma conversa por videoconferência que durou aproximadamente 40 minutos. O encontro ocorreu em um momento de crescente tensão comercial, motivada por recomendações do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para a aplicação de tarifas contra os dois países. Durante a conversa, acompanhada pelos chanceleres Mauro Vieira e Roberto Velasco, os líderes enfatizaram a relevância do fortalecimento do multilateralismo, do respeito ao direito internacional, da democracia e, especialmente, do princípio da não interferência em assuntos internos, destacando a complexidade do cenário global atual.
Além de tratar das questões comerciais, Lula e Sheinbaum manifestaram preocupação com a situação humanitária em Cuba e reiteraram o apoio ao fim do embargo econômico imposto ao país caribenho. Ambos os presidentes orientaram suas equipes diplomáticas a organizarem, em breve, a VI Reunião da Comissão Binacional México-Brasil, considerada o principal fórum para diálogo político e cooperação entre as duas nações, com o objetivo de avançar em diversas iniciativas conjuntas.
No âmbito das Nações Unidas, os presidentes confirmaram o respaldo à candidatura de Michelle Bachelet para o cargo de Secretária-Geral da ONU. O Brasil defende, desde o ano passado, que o próximo secretário-geral seja um cidadão latino-americano e que a liderança da organização seja ocupada por uma mulher. Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, possui vasta experiência internacional, tendo atuado como alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos e diretora-executiva da ONU Mulheres.
O contexto da videoconferência está marcado por uma ofensiva tarifária dos Estados Unidos, que recomendou a aplicação de taxas contra o Brasil com base na Seção 301 da lei comercial americana, criada na década de 1970. Entre os pontos questionados pelo USTR estão o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro (PIX), o setor de etanol, políticas ambientais relacionadas ao combate ao desmatamento e questões relativas à propriedade intelectual. Além disso, os EUA também consideram impor tarifas por supostas falhas do Brasil no combate ao trabalho forçado, uma medida que Lula já rejeitou veementemente.
Paralelamente, o México enfrenta ameaças semelhantes por parte dos Estados Unidos, que apontam falhas no combate a cartéis de drogas e descumprimento de acordos bilaterais. Claudia Sheinbaum já declarou que o México responderia com retaliações caso as tarifas fossem aplicadas. Em janeiro deste ano, o presidente americano chegou a afirmar que os cartéis “controlam” o México e anunciou a possibilidade de operações militares terrestres americanas no país.
Esses episódios evidenciam a crescente tensão nas relações comerciais e políticas entre Brasil, México e Estados Unidos, motivando os líderes latino-americanos a reforçarem a cooperação regional e o diálogo diplomático para enfrentar os desafios impostos pela política externa americana.
Contexto
Desde o ano passado, o governo dos Estados Unidos tem adotado uma postura mais agressiva em relação ao Brasil e ao México, utilizando a Seção 301 da lei comercial americana para justificar a imposição de tarifas que visam corrigir supostas práticas comerciais desleais. Essa legislação, criada na década de 1970, permite ao governo americano retaliar países que considera prejudiciais aos interesses econômicos dos EUA. A ofensiva inclui acusações relacionadas a setores estratégicos, como tecnologia financeira, produção de etanol, proteção ambiental e direitos trabalhistas. Paralelamente, a instabilidade política e a violência associada aos cartéis de drogas no México têm sido usadas como argumento para possíveis intervenções americanas, aumentando a tensão bilateral. Neste cenário, Brasil e México buscam fortalecer sua cooperação e defender princípios fundamentais do direito internacional, como a soberania nacional e a não interferência, além de apoiar candidaturas regionais em organismos multilaterais como a ONU.