Brasil alcança meta de redução de homicídios dolosos antecipadamente em 2025, aponta Anuário de Segurança Pública
Anuário revela menor taxa de mortes violentas desde 2012, mas alerta para aumento recorde de feminicídios e violência doméstica no país.
Anuário revela menor taxa de mortes violentas desde 2012, mas alerta para aumento recorde de feminicídios e violência doméstica no país.
O Brasil atingiu em 2025 a meta de redução de homicídios dolosos estabelecida para 2027, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado em 23 de julho. Apesar da queda geral nos assassinatos, o país enfrenta um crescimento preocupante nos casos de feminicídio e violência contra a mulher.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que o país registrou uma taxa de 15,1 homicídios dolosos por 100 mil habitantes, superando a meta de 16 mortes estabelecida pelo Plano Nacional de Segurança Pública em 2021, que tinha como horizonte o ano de 2027. Os homicídios dolosos são aqueles cometidos com intenção de matar, considerados parte das mortes violentas intencionais, que englobam também feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes causadas por policiais.
Em 2025, o Brasil contabilizou 40.775 mortes violentas intencionais, uma redução de 8% em relação às 44.126 registradas em 2024, alcançando o menor número desde 2012, início do levantamento do Fórum. A taxa geral de mortes violentas caiu para 19,1 por 100 mil habitantes, a mais baixa desde o início da série histórica. A diminuição foi observada em 20 das 27 unidades federativas, com destaque para Amazonas (queda de 32,5%), Rio Grande do Sul (25,7%) e Mato Grosso (23,2%). Santa Catarina registrou a menor taxa do país, com 7,6 mortes por 100 mil habitantes, superando São Paulo, que ocupava essa posição desde 2014.
No entanto, o cenário da violência contra a mulher apresenta dados alarmantes. Os feminicídios bateram recorde em 2025, com 1.571 casos, um aumento de 4% em relação a 2024, o que representa uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. Este é o maior número desde a tipificação do crime em 2015. Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destaca que o crescimento não se deve apenas à melhoria nos registros, mas a um aumento real dos casos. Ela também aponta para a elevação de outros indicadores de violência doméstica, como violência psicológica (17%), perseguição (stalking) (30%), descumprimento de medidas protetivas (17%) e ameaças (0,5%), indicando um cenário preocupante para a defesa dos direitos das mulheres.
Além disso, as mortes decorrentes de intervenção policial aumentaram 5% em 2025, enquanto o número de policiais mortos caiu 3%. O estudo também aponta crescimento de 25% nos registros relacionados à produção, posse ou distribuição de conteúdos de abuso sexual infantil e um aumento superior a 60% nos casos de bullying e cyberbullying entre jovens, após a criação de um tipo penal específico em 2024.
No âmbito socioeducativo, o número de adolescentes cumprindo medidas caiu 54% em nove anos, totalizando 12,2 mil jovens, majoritariamente meninos (93%), negros (74%) e com idade entre 16 e 18 anos (76%). Os crimes mais comuns são roubo (29%) e tráfico de drogas (28%). Já o sistema prisional brasileiro registrou crescimento de 6%, chegando a 964 mil detentos, com projeções de atingir 1 milhão até 2027 se a tendência persistir.
O controle de armas também foi abordado: existem 2,1 milhões de pessoas e empresas autorizadas a possuir armas, das quais 1 milhão são licenciadas como Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CAC). O total de armas cadastradas é de 1,6 milhão, sendo que 30% estão com registro vencido.
David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ressalta que a redução de mais de 8% nas mortes violentas intencionais entre 2024 e 2025 é um avanço significativo e consolida uma tendência de queda iniciada em 2018. Contudo, ele alerta para os desafios que permanecem, especialmente no aumento dos feminicídios e das mortes por intervenção policial, que demandam atenção contínua das políticas públicas de segurança.
Contexto
Desde 2012, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública acompanha as estatísticas de violência no país, fornecendo dados essenciais para a formulação de políticas públicas. O Plano Nacional de Segurança Pública, lançado em 2021, estabeleceu metas para redução de homicídios dolosos até 2027, baseando-se em estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O Anuário de 2025 é o primeiro a registrar o cumprimento antecipado dessas metas, ao mesmo tempo em que evidencia desafios persistentes relacionados à violência contra a mulher e à atuação policial.