Brasil registra média de 4 golpes por minuto em 2025, revela Anuário de Segurança Pública
Estudo aponta crescimento recorde nos casos de estelionato, enquanto roubos diminuem e crimes digitais ganham força em todo o país.
Estudo aponta crescimento recorde nos casos de estelionato, enquanto roubos diminuem e crimes digitais ganham força em todo o país.
O Brasil enfrentou uma escalada significativa nos golpes em 2025, com uma média de quatro ocorrências por minuto, totalizando mais de 2,2 milhões de registros de estelionato, conforme dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado em julho.
O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 23 de julho de 2026, revelou que o país registrou 2.261.055 casos de estelionato em 2025, o que representa um aumento de 2,7% em relação ao ano anterior e um crescimento de 429,8% desde 2018. Essa alta expressiva coloca o Brasil em uma situação preocupante, com uma média de 258 golpes por hora, ou quatro por minuto. O levantamento, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, abrange dados coletados pelas secretarias de segurança dos 26 estados e do Distrito Federal.
O estudo destaca que o aumento dos golpes está associado à transformação dos crimes patrimoniais no pós-pandemia, com queda nos roubos e furtos, mas crescimento expressivo dos estelionatos, especialmente os digitais, que subiram 20,6%, totalizando mais de 346 mil casos em 2025. Enquanto isso, os roubos caíram 18,3%, passando de 745.193 para 610.959 ocorrências.
São Paulo lidera o ranking nacional de estelionatos, com uma taxa de 1.808 casos por 100 mil habitantes, seguido pelo Distrito Federal, Paraná, Rondônia, Santa Catarina e Espírito Santo. Segundo os pesquisadores Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima, essa distribuição acompanha o grau de bancarização, digitalização e integração ao sistema financeiro formal de cada estado, o que explica a maior incidência em regiões mais urbanizadas e conectadas digitalmente.
Entre os golpes mais frequentes, o Anuário destaca:
– Clonagem ou troca de cartão de crédito: criminosos obtêm dados por meio de páginas falsas, maquininhas adulteradas ou contato fraudulento, realizando compras não autorizadas. Em compras presenciais, há troca do cartão original por um similar para obtenção da senha.
– Golpe do WhatsApp: criminosos se passam por familiares ou amigos, utilizando fotos e informações das redes sociais para pedir dinheiro urgentemente, além de invadir contas para solicitar transferências.
– Golpe da falsa central bancária: estelionatários se passam por funcionários de bancos, informam supostas fraudes e induzem vítimas a fornecer senhas, códigos, instalar aplicativos de acesso remoto e realizar transferências para contas falsas.
– Golpe do PIX: usado para diversas fraudes, incluindo pedidos falsos de conhecidos, vendas inexistentes e QR Codes adulterados, com transferências realizadas após manipulação psicológica das vítimas.
– Golpe do uso indevido de CPF via SMS: mensagens falsas alertam sobre irregularidades no CPF, levando vítimas a fornecer dados pessoais e bancários ou instalar programas maliciosos.
– Golpe do leilão ou loja falsa: criação de sites e perfis falsos que oferecem produtos com preços muito abaixo do mercado, recebendo pagamentos que não resultam na entrega dos itens.
O relatório também ressalta a nova dinâmica do crime organizado, com facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) operando “escritórios do crime” especializados em fraudes digitais. Segundo o estudo, o combate efetivo exige ações que atinjam simultaneamente a estrutura organizacional e os canais de lavagem de dinheiro dessas organizações, pois o estelionato no Brasil é caracterizado por riscos baixos de punição e alta rentabilidade.
Além dos golpes, o Anuário trouxe outros dados relevantes sobre segurança pública em 2025. Os feminicídios atingiram um recorde, com 1.571 mulheres assassinadas, média de quatro por dia, aumento de 4% em relação a 2024. Apesar disso, o país registrou a menor taxa de mortes violentas desde 2012, com 40.775 homicídios e uma taxa de 19,1 mortes por 100 mil habitantes.
O Nordeste concentra as cidades com as maiores taxas de mortes violentas, com Maranguape (CE) liderando pelo segundo ano consecutivo. Santa Catarina obteve a menor taxa estadual, com 7,6 mortes por 100 mil habitantes, superando São Paulo, que ocupava essa posição desde 2014.
Outros pontos do levantamento incluem aumento de 5% nas mortes cometidas por policiais, queda de 3% no número de policiais mortos, crescimento de 25% em registros de conteúdo de abuso sexual infantil, e alta superior a 60% nos casos de bullying e cyberbullying entre jovens após a criação de tipo penal específico em 2024.
No sistema socioeducativo, o número de adolescentes cumprindo medidas caiu 54% em nove anos, totalizando 12,2 mil jovens, a maioria meninos (93%), negros (74%) e com idades entre 16 e 18 anos (76%). Os crimes mais comuns são roubo (29%) e tráfico de drogas (28%).
O sistema prisional brasileiro cresceu 6% em 2025, alcançando 964 mil pessoas, com projeção de ultrapassar 1 milhão de presos até 2027, caso a tendência se mantenha.
Por fim, o país conta com 2,1 milhões de pessoas e empresas autorizadas a possuir armas, sendo 1 milhão com licença CAC (Caçadores, Atiradores e Colecionadores), e 1,6 milhão de armas cadastradas, das quais 30% estão com registro vencido. O Brasil também registrou a média de 95 celulares roubados por hora.
Contexto
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública é uma publicação anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que compila dados oficiais de criminalidade coletados pelas secretarias de segurança dos estados e do Distrito Federal. Desde sua criação em 2011, o estudo tem sido referência para análise de tendências criminais no país, incluindo violência, crimes patrimoniais e questões relacionadas à segurança pública. O levantamento de 2025 destaca a transformação dos crimes patrimoniais, com crescimento dos golpes digitais, e aponta para a necessidade de políticas públicas que enfrentem a nova estrutura do crime organizado e a vulnerabilidade da população diante das fraudes.