Economia

China devolve cargas de soja do Brasil e exportadoras enfrentam desafios sanitários

País asiático rejeita cerca de 20 navios por presença de ervas daninhas proibidas; Ministério da Agricultura busca acordo para protocolo sanitário

País asiático rejeita cerca de 20 navios por presença de ervas daninhas proibidas; Ministério da Agricultura busca acordo para protocolo sanitário

Nos últimos dias, a China devolveu diversas cargas de soja brasileiras por descumprimento de normas fitossanitárias, enquanto a Cargill suspendeu embarques ao país. A soja brasileira, cuja China é principal destino, representa cerca de 80% das exportações do produto, e o episódio mobiliza autoridades para evitar impactos no comércio bilateral.

A recente devolução de aproximadamente 20 navios carregados com soja brasileira pela China chamou a atenção do setor agrícola e do governo brasileiro. As cargas foram rejeitadas devido à presença de sementes de ervas daninhas proibidas pelas normas sanitárias chinesas, o que motivou uma reação rigorosa das autoridades do país asiático. Em resposta, representantes do Ministério da Agricultura do Brasil planejam uma viagem à China na próxima semana para discutir a situação e buscar soluções.

O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou em coletiva no dia 17 de março que a qualidade da soja produzida no Brasil é “inquestionável”, mas reconheceu a legitimidade das preocupações chinesas. O ministro adiantou que pretende propor a criação de um protocolo sanitário específico para o comércio de soja entre os dois países, visando maior clareza e segurança para os embarques.

Segundo Raphael Bulascoschi, analista de mercado da StoneX Brasil, o problema teve início no final de 2025, quando o GACC (Administração Geral de Alfândega da China) notificou o governo brasileiro sobre a chegada de cargas com excesso de sementes proibidas e outros materiais estranhos. A partir de então, a fiscalização chinesa intensificou as exigências, levando o Ministério da Agricultura a adotar uma postura de “tolerância zero” e a realizar inspeções mais rigorosas, negando certificados fitossanitários para cargas que não atendem aos critérios.

A ausência do certificado impede que as cargas sejam desembarcadas na China e que as exportadoras recebam o pagamento, o que levou a Cargill, uma das maiores exportadoras de grãos do Brasil, a suspender temporariamente seus embarques ao país asiático no dia 12 de março. Procurada, a empresa informou que suas entidades representativas, a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) e a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), emitiriam uma nota conjunta, que destacou o acompanhamento atento dos desdobramentos, mas não detalhou as ações.

O Ministério da Agricultura declarou que mantém diálogo constante com as principais tradings e associações do setor para superar as dificuldades e garantir a qualidade dos produtos brasileiros. O ministro Fávaro negou rumores de flexibilização nas regras de inspeção, ressaltando que, caso houvesse relaxamento, os navios não estariam retidos.

Apesar do episódio, analistas do Hedgepoint Global Markets consideram o impacto pontual e sem reflexos significativos no volume total exportado. Thais Italiani, gerente de Inteligência de Mercado, informou que a fila de navios nos portos brasileiros permanece robusta, com cerca de 17 milhões de toneladas de soja aguardando embarque, das quais 10 milhões são destinadas à China. Luiz Fernando Gutierrez Roque, coordenador de Inteligência de Mercado de Grãos e Oleaginosas da Hedgepoint, destacou que as 20 cargas rejeitadas correspondem a 1,2 milhão a 1,5 milhão de toneladas, número pequeno diante da expectativa de 112 milhões de toneladas exportadas pelo Brasil em 2026.

A nota conjunta da Abiove e da Anec reforça o compromisso das entidades em manter diálogo com as autoridades e demais atores da cadeia produtiva para garantir a fluidez do comércio, a segurança jurídica e o fortalecimento das relações comerciais internacionais, além de assegurar o cumprimento dos requisitos fitossanitários.

O episódio ocorre em um momento de crescente atenção às normas sanitárias no comércio internacional, ressaltando a importância de protocolos claros e rigorosos para evitar prejuízos econômicos e diplomáticos entre os países envolvidos.

Contexto

A China é o principal destino da soja brasileira, absorvendo cerca de 80% das exportações do produto. A soja é um dos principais pilares do agronegócio brasileiro, responsável por grande parte da receita cambial do país. Desde o final de 2025, a fiscalização chinesa intensificou o controle sobre as cargas importadas, especialmente devido à presença de sementes proibidas, o que gerou tensões comerciais. A resposta do governo brasileiro tem sido a intensificação das inspeções e a busca por acordos específicos para garantir a continuidade das exportações sem comprometer os padrões de qualidade exigidos internacionalmente.

URL de origem: https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2026/03/18/por-que-a-china-devolveu-cargas-de-soja-do-brasil-e-uma-grande-exportadora-cancelou-embarques.ghtml

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