Política Nacional

PGR denuncia esquema de tráfico de brasileiros para golpes no Camboja

Quatro homens são acusados de aliciar brasileiros para trabalho escravo em esquema de fraudes digitais no Camboja, com vítimas submetidas a condições degradantes.

Quatro homens são acusados de aliciar brasileiros para trabalho escravo em esquema de fraudes digitais no Camboja, com vítimas submetidas a condições degradantes.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou denúncia contra quatro homens envolvidos no tráfico internacional de brasileiros para o Camboja, onde as vítimas eram submetidas a trabalho escravo e forçadas a aplicar golpes pela internet, segundo investigação que revela detalhes do esquema criminoso.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou quatro indivíduos, incluindo três brasileiros e um chinês, por tráfico internacional de pessoas com finalidade de trabalho escravo e organização criminosa. Eles são apontados como responsáveis por aliciar brasileiros com falsas promessas de emprego para atuarem em Sihanoukville, no Camboja, em um esquema de golpes digitais coordenado por uma rede chinesa. Dois dos denunciados estão detidos na China, e o governo brasileiro já solicitou formalmente sua extradição. A denúncia, baseada em investigação da Polícia Federal, indica que pelo menos 17 brasileiros foram vítimas, embora relatos apontem que o número real pode superar 50. Segundo depoimentos, as vítimas foram atraídas por ofertas de emprego divulgadas em redes sociais como Instagram e Facebook, ou por contatos pessoais com os aliciadores. A promessa incluía uma viagem com todas as despesas pagas, estadia em hotel de luxo White Sand Palace e salário mensal de US$ 900, além de comissões. Os contratados acreditavam que trabalhariam com vendas de produtos financeiros, bitcoins ou marketing digital. Durante a viagem, que podia durar até seis dias com múltiplas escalas em países como Alemanha, Turquia e Tailândia, as vítimas enfrentaram dificuldades, incluindo deportação e detenção na Tailândia, onde foram obrigadas a pagar por sua permanência em cela antes de conseguir retornar ao Brasil com apoio da embaixada. Ao chegarem ao Camboja, os brasileiros tiveram seus passaportes recolhidos e dispensados da imigração, sendo levados diretamente ao hotel onde residiriam e trabalhariam sob vigilância rigorosa. Lá, foram submetidos a jornadas de trabalho de até 12 horas diárias, muitas vezes estendidas, em condições degradantes, com alimentação precária e restrições severas à liberdade, incluindo autorização para sair do hotel apenas acompanhados por “líderes” brasileiros e sob controle constante. Os salários eram frequentemente reduzidos por multas arbitrárias, baseadas em pequenas infrações como atrasos ou uso do banheiro sem permissão, chegando a descontos de até US$ 300 mensais. O trabalho consistia em aplicar golpes online contra brasileiros, divididos em dois “projetos”: um envolvia criar perfis falsos para enganar lojistas e induzi-los a transferir dinheiro sob a promessa de venda de produtos, que nunca eram entregues; o outro consistia em uma plataforma de investimentos fraudulenta que atraía vítimas com ganhos falsos para convencê-las a investir mais, resultando em perdas financeiras significativas. As transferências eram feitas para a empresa Umbrella Importações Ltda., e o dinheiro obtido era convertido em criptomoedas pela organização criminosa. O esquema começou a ser desarticulado no final de 2022, quando a polícia cambojana intensificou fiscalizações no hotel, levando à expulsão dos brasileiros. A denúncia também aponta que um político brasileiro foi vítima dos golpes, o que agravou a situação do grupo. Para retornar ao Brasil, as vítimas precisaram contar com apoio de familiares e organizações não governamentais para custear as passagens. A investigação ainda não identificou totalmente todos os envolvidos, especialmente alguns chineses que integravam a quadrilha, conhecidos apenas por apelidos. A PGR segue acompanhando o caso e aguarda a extradição dos presos na China para dar continuidade às ações judiciais.

Contexto

O tráfico internacional de pessoas para fins de trabalho escravo e crimes digitais é uma prática que tem ganhado atenção das autoridades brasileiras e internacionais. Casos envolvendo aliciamento por meio de redes sociais e falsas promessas de emprego em outros países têm sido cada vez mais frequentes, exigindo cooperação entre países para combater essas organizações criminosas. O esquema denunciado pela PGR no Camboja evidencia a complexidade dessas operações, que utilizam tecnologia para aplicar golpes financeiros e explorar trabalhadores em condições análogas à escravidão.

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