Classificação do PCC e CV como grupos terroristas pelos EUA pode gerar impactos econômicos no Brasil
Especialistas alertam para consequências financeiras e jurídicas da inclusão das facções brasileiras em listas de terrorismo dos Estados Unidos.
Especialistas alertam para consequências financeiras e jurídicas da inclusão das facções brasileiras em listas de terrorismo dos Estados Unidos.
A recente decisão dos Estados Unidos de incluir o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) em suas listas de grupos terroristas pode trazer sérios efeitos econômicos para o Brasil, especialmente devido à infiltração dessas organizações no sistema financeiro nacional, conforme apontam especialistas e investigações recentes.
Os Estados Unidos anunciaram a inclusão do PCC e do CV em duas listas oficiais: a de Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs) e a de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs). Essa medida, além de ampliar o combate internacional às atividades ilícitas dessas facções, pode resultar em sanções econômicas significativas para o Brasil, país onde essas organizações criminosas atuam intensamente.
Segundo Thiago Rodrigues, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a classificação na lista SDGT já está em vigor e foca no bloqueio de operações financeiras realizadas dentro dos Estados Unidos. Já a inclusão na lista FTO amplia o alcance das ações americanas, permitindo o processamento judicial de pessoas de outros países que mantenham relações financeiras ou comerciais com os grupos listados, mesmo que essas atividades ocorram fora do território americano.
“Isso significa que empresários, políticos, banqueiros e outras personalidades podem ser responsabilizados nos EUA por negócios feitos no Brasil que envolvam essas organizações”, explica Rodrigues. Ele ressalta que essa situação pode afetar diretamente a economia brasileira, uma vez que o país é a sétima maior economia do mundo e está profundamente integrada ao sistema financeiro global.
A Operação Carbono Oculto, conduzida pela Polícia Federal desde 2025, exemplifica a complexidade dessa infiltração. A investigação revelou que o PCC utilizava fintechs para misturar recursos lícitos e ilícitos em “contas-bolsões” dentro de grandes instituições financeiras. Além disso, o setor de combustíveis foi identificado como um meio para lavagem de dinheiro, dificultando o rastreamento dos valores criminosos.
O promotor Lincoln Gakiya, com 21 anos de atuação no combate ao PCC e um dos responsáveis pela Operação Carbono Oculto, alerta para os riscos de sanções econômicas severas ao Brasil. Ele detalha que fundos de investimento ligados a essas operações ilícitas realizam transações com bancos brasileiros que, por sua vez, mantêm relações financeiras com instituições americanas. “Se a interpretação da classificação como terrorismo for aplicada rigorosamente, bancos brasileiros podem ser sancionados mesmo sem contato direto com o PCC”, afirma Gakiya.
As possíveis sanções incluem o congelamento de ativos e a proibição de transações com bancos americanos, o que poderia impactar diversos setores da economia nacional, como o agronegócio, tecnologia, turismo e o mercado financeiro. Apesar disso, representantes de grandes bancos brasileiros minimizam os efeitos, destacando que as instituições já possuem programas robustos de compliance e prevenção à lavagem de dinheiro, e que as fintechs que não seguem essas normas serão as mais afetadas.
O Banco Central do Brasil, atento a esses riscos, tem implementado regras mais rigorosas para identificar e rastrear a origem dos recursos financeiros, buscando evitar a infiltração do crime organizado no sistema econômico formal.
Historicamente, grupos criminosos latino-americanos já figuravam nas listas de terrorismo dos EUA desde 2021, quando o governo americano, sob a administração do presidente Donald Trump, ampliou o conceito para incluir organizações como o cartel de Sinaloa, o Trem de Arágua e o Mara Salvatrucha. Desde então, o PCC já constava em uma lista do Departamento do Tesouro dos EUA como organização criminosa internacional, o que permitia medidas como confisco de bens e prisão de envolvidos em atividades nos EUA, embora com resultados limitados.
Rodrigues destaca que a nova classificação é mais política do que técnica, pois insere essas facções na narrativa global da guerra contra o terrorismo, o que pode justificar intervenções políticas e jurídicas mais amplas. Ele observa ainda que a presença do PCC nos Estados Unidos é considerada pequena e que não há evidências de uma expansão significativa da facção naquele país.
Diante desse cenário, o Brasil enfrenta o desafio de fortalecer seus mecanismos de controle financeiro e judicial para mitigar os impactos econômicos e reputacionais decorrentes da decisão americana, além de combater efetivamente a lavagem de dinheiro e a infiltração do crime organizado na economia formal.
Contexto
A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o CV como grupos terroristas ocorre em um contexto de ampliação da luta internacional contra o crime organizado transnacional, que utiliza o sistema financeiro global para lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas. Desde 2021, o governo americano vem incluindo organizações criminosas latino-americanas em suas listas de terroristas, buscando endurecer as sanções e ampliar o alcance das ações judiciais. No Brasil, operações como a Carbono Oculto evidenciam a complexidade e o grau de penetração dessas facções na economia formal, especialmente por meio de fintechs e setores estratégicos como o agronegócio e combustíveis. A medida dos EUA pode intensificar a pressão sobre o sistema financeiro brasileiro, exigindo maior rigor nas políticas de compliance e prevenção à lavagem de dinheiro.