
Em nota oficial e coletiva, Executivo brasileiro contesta investigação dos EUA e reforça diálogo para evitar medidas unilaterais
O governo brasileiro divulgou nesta terça-feira (2) uma nota oficial em resposta à proposta do Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) que prevê a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros. O texto manifesta indignação diante da investigação preliminar que acusa o Brasil de práticas comerciais desleais e ressalta o impacto negativo dessas medidas na economia nacional.
O Executivo brasileiro manifestou forte oposição à iniciativa dos Estados Unidos de impor tarifas adicionais sobre exportações brasileiras, conforme anunciado pelo USTR. A investigação, iniciada em julho de 2025, foi motivada por ações da família Bolsonaro, incluindo a recente visita do senador Flávio Bolsonaro a Washington, que, segundo o governo, configuram ingerência nos assuntos internos do Brasil.
Em nota oficial, o governo classificou as medidas como injustificadas e ressaltou que, nos últimos 15 anos, os EUA acumularam um superávit de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços com o Brasil. Somente em 2025, o superávit comercial americano com o país totalizou US$ 40,52 bilhões quando considerados bens e serviços. Além disso, 76% das importações originárias dos EUA entraram no Brasil sem pagamento de impostos, com uma alíquota média efetiva de apenas 3,1%.
O vice-presidente Geraldo Alckmin, durante coletiva de imprensa, qualificou a proposta norte-americana como “injusta” e destacou que as tarifas unilateralmente aplicadas prejudicam a economia brasileira, a geração de empregos e a renda da população, além de enfraquecer a parceria comercial entre os dois países. Ele ressaltou que a participação dos EUA nas exportações brasileiras atingiu o menor patamar histórico, 9,4%, no primeiro trimestre de 2026.
O governo brasileiro reafirmou o compromisso com o diálogo e as negociações tarifárias iniciadas após o encontro dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em 7 de maio, em Washington. O objetivo é encerrar a investigação da Seção 301 até 15 de julho sem a imposição de medidas punitivas contra o Brasil.
No entanto, o Brasil se reserva o direito de adotar medidas recíprocas previstas na Lei de Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional, caso as tarifas sejam efetivamente aplicadas. O comunicado também alerta para a atuação de “falsos patriotas” que, segundo o governo, conspiram contra os interesses nacionais em benefício de interesses eleitorais e familiares.
O documento detalha ainda os principais argumentos apresentados pelo Brasil durante as reuniões técnicas com o USTR, destacando que a política comercial brasileira não discrimina empresas estrangeiras, incluindo as americanas, e que o sistema de pagamentos instantâneos PIX é uma infraestrutura pública, neutra e amplamente utilizada, inclusive por companhias dos EUA.
Outros pontos abordados incluem a abertura do Programa Nacional de Biocombustíveis a produtores estrangeiros, a participação dos EUA como principal beneficiário do sistema brasileiro de propriedade intelectual, o combate à corrupção e o compromisso do Brasil com a redução do desmatamento, que atingiu o menor nível em sete anos em 2025, segundo dados do MapBiomas.
O governo brasileiro conclui a nota reafirmando a importância de defender a soberania nacional e os interesses do povo brasileiro diante das medidas propostas pelos Estados Unidos.
Contexto
A controvérsia atual entre Brasil e Estados Unidos tem origem na investigação da Seção 301, iniciada em julho de 2025, que apura supostas práticas comerciais desleais do Brasil. A medida foi provocada por membros da família Bolsonaro, gerando tensões diplomáticas. O governo Lula, desde então, tem buscado diálogo para evitar a imposição de tarifas que possam prejudicar a economia brasileira. O tema ganhou destaque após o anúncio do USTR e as declarações do presidente Lula, que associou as ações da família Bolsonaro às medidas americanas. A situação ocorre em meio a negociações bilaterais para equilibrar relações comerciais e proteger setores estratégicos, como o sistema de pagamentos PIX e o setor de biocombustíveis.