
Transferência de imóvel registrada após apreensão de dinheiro levanta suspeitas de irregularidades em investigação sobre desvio de recursos públicos.
A Polícia Federal iniciou uma investigação para apurar se aliados do deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) falsificaram a escritura de um imóvel com o objetivo de justificar a origem de R$ 470 mil em dinheiro vivo apreendidos em dezembro de 2025 durante uma operação contra suspeitas de desvios de cotas parlamentares.
Em 1º de julho de 2026, a Polícia Federal deflagrou uma operação para aprofundar as investigações sobre a origem do dinheiro em espécie encontrado em um flat utilizado pelo deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara dos Deputados. O montante de R$ 470 mil foi apreendido em dezembro do ano anterior, durante mandados de busca e apreensão relacionados a suspeitas de desvios de recursos públicos provenientes de cotas parlamentares. Na ocasião, Sóstenes afirmou em coletiva que o dinheiro era fruto da venda de um imóvel localizado em Minas Gerais. Contudo, a PF identificou que a escritura pública de compra e venda do imóvel foi lavrada em 30 de dezembro de 2025, cerca de um mês após a apreensão do dinheiro, ocorrida em 19 de dezembro. O documento registra que o pagamento em espécie teria sido realizado em 24 de novembro, data anterior à formalização da escritura, o que levanta dúvidas sobre a veracidade da transação. A análise policial destaca que a escritura foi registrada apenas após as medidas cautelares, sugerindo que o documento teria sido produzido posteriormente para conferir aparência legal a uma operação supostamente anterior. Além disso, o Relatório de Inteligência Financeira (RIF) não encontrou evidências de saques compatíveis com o pagamento em dinheiro declarado na escritura. A investigação também aponta que empresas associadas ao caso movimentaram cerca de R$ 15 milhões, e há suspeitas de que parte desses recursos possa ter origem em peculato envolvendo o deputado. O crime de peculato consiste na apropriação ou desvio de bens públicos por agentes públicos para benefício próprio. A operação que resultou na apreensão do dinheiro em dezembro de 2025 também envolveu o deputado Carlos Jordy (PL-RJ), ambos investigados por suposto desvio de recursos públicos por meio do uso de empresas de fachada, incluindo uma locadora de veículos. Segundo a PF, contratos fraudulentos teriam sido utilizados para justificar despesas pagas com verba parlamentar. Durante a apreensão, foram encontrados R$ 468.700 em cédulas de R$ 100, além de quatro pacotes etiquetados com valores de R$ 100 mil cada, relacionados aos meses de março de 2025 e bancos como Sicredi e Banco do Brasil. Sóstenes Cavalcante negou irregularidades, alegando perseguição judicial, e explicou que não depositou o dinheiro em banco por conta da “correria de trabalho”, classificando o fato como um “lapso”. A partir da apreensão, a PF ampliou as investigações, rastreando movimentações financeiras e patrimoniais dos envolvidos, e constatou a ausência de registros bancários que comprovem o pagamento em dinheiro vivo na data indicada na escritura, reforçando as suspeitas de falsificação documental.
Contexto
A investigação da Polícia Federal tem origem em mandados de busca e apreensão cumpridos em dezembro de 2025 contra os deputados Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy, ambos do PL do Rio de Janeiro, sob suspeita de desvio de recursos públicos provenientes das cotas parlamentares. A operação revelou a existência de empresas de fachada e contratos fraudulentos, além da apreensão de grande quantia em dinheiro vivo. O caso ganhou repercussão nacional e está sendo acompanhado pelo Supremo Tribunal Federal, que autorizou medidas para aprofundar as investigações sobre a suposta falsificação de documentos e a origem dos recursos financeiros envolvidos.