
Operação Compliance Zero mira publicitário Thiago Miranda, apontado como articulador do 'Projeto DV' para desestabilizar o BC e proteger Banco Master.
A Polícia Federal revelou que uma organização ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro oferecia pagamentos milionários a influenciadores digitais para veicular conteúdos contrários ao Banco Central, em uma estratégia denominada ‘Projeto DV’. O publicitário Thiago Miranda, identificado como principal articulador do esquema, foi alvo de busca e apreensão autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF.
A Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, desvendou um esquema criminoso que envolvia o banqueiro Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda Silva, responsável pela coordenação de campanhas contra o Banco Central nas redes sociais. Segundo decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, assinada em 9 de julho de 2026, o grupo oferecia até R$ 2 milhões a influenciadores digitais para produzir conteúdos que questionassem a liquidação do Banco Master pelo BC e promovesse uma narrativa favorável à instituição financeira.
O publicitário Thiago Miranda, que negou envolvimento em atividades ilícitas, é apontado pela PF como o principal articulador do ‘Projeto DV’ — nome que faz referência às iniciais de Daniel Vorcaro. A defesa de Miranda afirmou que sua atuação sempre respeitou a legalidade, a transparência e as instituições, e que ele não participou de atos criminosos ou de intimidação contra terceiros.
De acordo com as investigações, o grupo abordava influenciadores e jornalistas oferecendo contratos para gerenciar reputações e divulgar conteúdos alinhados aos interesses do Banco Master. Antes de conhecer os detalhes da proposta, os contratados assinavam acordos de confidencialidade com multas de até R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo. Um exemplo é o vereador Rony Gabriel, que relatou ter sido contratado para gravar vídeos alegando que o Banco Master teria sido vítima de ações do Banco Central.
A Polícia Federal também apontou que quem recusava as propostas sofria intimidações, com o uso de dados sigilosos obtidos de forma ilegal para coagir e ameaçar. Entre os alvos dessas práticas estavam jornalistas como Malu Gaspar, do jornal O Globo, que teve suas informações pessoais e financeiras investigadas para desqualificar seu trabalho. O presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, e sua esposa também foram monitorados, com dossiês elaborados pela agência de Miranda circulando entre os envolvidos.
Os pagamentos aos influenciadores eram realizados por Thiago Miranda, que confirmou em depoimento que os recursos provinham de Vorcaro, especificamente da empresa Super Empreendimentos e Participações. Parte do dinheiro teria origem nas fraudes financeiras do Banco Master, investigadas pela mesma operação que resultou na prisão de Vorcaro em novembro de 2025.
Miranda relatou à Polícia Federal que conheceu Vorcaro durante negociações para a venda de uma parte do portal de notícias Léo Dias por R$ 3,5 milhões, projeto no qual o banqueiro buscava formar um conglomerado de mídia. Após a primeira soltura de Vorcaro, Miranda apresentou um plano de reestruturação de imagem e gerenciamento de crise, que deu origem ao Projeto DV, coordenado por sua agência e focado em matérias sobre a prisão e investigações relacionadas ao Banco Master.
Além da compra de postagens, o grupo monitorava adversários e jornalistas críticos, buscando estratégias para descredibilizá-los e pressionar veículos de comunicação a retirar reportagens. A troca de mensagens entre Miranda e Vorcaro revela a elaboração de dossiês e o acompanhamento próximo de figuras influentes, incluindo a companheira do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, cuja relação era explorada para benefício do grupo.
O ministro André Mendonça destacou que as evidências apresentadas ultrapassam meras suspeitas, autorizando a apreensão de documentos, celulares e dados em nuvem de Thiago Miranda, além do afastamento dos sigilos bancário, fiscal e telefônico. Para o magistrado, o grupo possui características semelhantes às de uma máfia, atuando contra qualquer pessoa que representasse obstáculo aos interesses de Vorcaro.
A defesa de Thiago Miranda divulgou nota reafirmando a legalidade da atuação do publicitário, ressaltando que ele está à disposição das autoridades para esclarecimentos e que respeita o devido processo legal, a ampla defesa e a presunção de inocência.
Contexto
O caso está inserido na Operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras e crimes correlatos envolvendo o Banco Master e seus dirigentes. Daniel Vorcaro foi preso em novembro de 2025 como parte das apurações. A investigação atual foca em um esquema de desinformação e intimidação para proteger os interesses do banco e desestabilizar o Banco Central, utilizando influenciadores digitais e jornalistas. O uso de dados sigilosos para coagir críticos e a articulação de campanhas de desinformação evidenciam a complexidade e gravidade do caso.