
Estados Unidos propõem combinação de tarifas que inclui sobretaxa de 12,5% por questões trabalhistas; governo brasileiro busca diálogo para evitar medidas.
O governo brasileiro informou que as tarifas propostas pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais podem alcançar 37,5%, caso sejam implementadas integralmente. A medida, que combina uma tarifa base de 25% e uma sobretaxa adicional de 12,5%, motivou negociações entre autoridades dos dois países, que mantêm canais abertos para tentar reverter ou mitigar os impactos.
As autoridades brasileiras, incluindo o Itamaraty, o Ministério da Fazenda e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, analisam com preocupação as recentes propostas tarifárias dos Estados Unidos, que podem elevar a carga tributária sobre produtos brasileiros a 37,5%. Essa porcentagem resulta da soma de uma tarifa inicial de 25%, anunciada pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) no dia 1º de junho, com uma sobretaxa adicional de 12,5%, divulgada no dia seguinte, 2 de junho.
A primeira tarifa de 25% foi justificada pelos EUA com base em alegações de que o Brasil adota práticas comerciais que oneram ou restringem o comércio bilateral. Já a sobretaxa de 12,5% está relacionada a uma investigação que apontou falhas em 60 países, incluindo o Brasil, no combate à importação de produtos fabricados com trabalho forçado.
Durante a reunião da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), realizada na França em 3 de junho, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, encontrou-se com o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer. No encontro, Greer reafirmou a disposição dos Estados Unidos para manter o diálogo sobre as tarifas, enquanto Vieira defendeu a intensificação das negociações para buscar soluções.
Fontes próximas às conversas indicam que o canal de comunicação entre os dois governos permanece ativo, com negociações previstas para ocorrer dentro do prazo de 30 dias estabelecido pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump durante encontro em Washington. Apesar da escalada das tensões comerciais, integrantes da delegação brasileira consideram que ainda há espaço para acordos que possam reduzir ou eliminar as tarifas propostas.
No âmbito doméstico, o presidente Lula adotou um tom mais firme em relação às medidas americanas. Em reunião ministerial no Palácio do Planalto, realizada em 3 de junho, ele criticou o tratamento recebido pelo Brasil e direcionou suas críticas ao secretário de Estado americano. Lula declarou que o país não aceitará o que considera um tratamento injusto e anunciou a intenção de enviar uma nova carta a Donald Trump para contestar as tarifas, afirmando que os EUA estão equivocados.
Além disso, o presidente enfatizou a defesa da soberania nacional, especialmente em relação ao sistema de pagamentos instantâneos PIX, desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, que tem sido alvo de questionamentos por parte dos Estados Unidos. Durante o encontro, Lula exibiu um slide com a frase “O PIX é do Brasil”, reforçando a importância do sistema para o país.
O presidente também sinalizou a possibilidade de buscar novos parceiros comerciais caso as negociações com os EUA não avancem, e revelou que reconsiderou sua participação na Cúpula do G7, marcada para 15 a 17 de junho na França, inicialmente descartada.
No governo, o episódio é tratado como uma crise comercial com potencial impacto político, especialmente em ano eleitoral. Apesar do discurso mais duro do presidente, auxiliares ainda acreditam na possibilidade de negociação e interpretam a manutenção do diálogo como um indicativo de que as tarifas podem ser revistas. A estratégia adotada visa negociar as tarifas de forma separada, buscando reverter ao menos uma das medidas propostas.
Contexto
A disputa tarifária entre Brasil e Estados Unidos ocorre em um momento de tensão crescente nas relações comerciais bilaterais. Em 2025, os EUA já haviam imposto tarifas próximas a 40% sobre produtos brasileiros, e as novas propostas podem agravar ainda mais o cenário. As investigações do USTR refletem preocupações americanas sobre práticas comerciais e direitos trabalhistas, especialmente no que diz respeito ao combate ao trabalho forçado. O governo brasileiro, por sua vez, busca preservar sua soberania econômica e ampliar parcerias internacionais para mitigar os efeitos das medidas americanas.