
Voo particular que trouxe políticos do Caribe é alvo de inquérito da PF após irregularidades na fiscalização de bagagens
Fernando Cavendish, empresário condenado na Lava Jato do Rio por corrupção, estava entre os passageiros do voo privado que trouxe o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira do Caribe, conforme documentos da Polícia Federal.
Um voo particular realizado em 20 de abril de 2025, que partiu da ilha de São Martinho, no Caribe, e desembarcou no Aeroporto Catarina, em São Roque (SP), reuniu figuras políticas e empresariais sob investigação da Polícia Federal. Entre os 16 passageiros estava Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta e condenado em 2018 por participação em esquema que desviou cerca de R$ 370 milhões dos cofres públicos durante a Operação Lava Jato no Rio de Janeiro. Cavendish, que se tornou delator, admitiu ter pago propina ao ex-governador Sérgio Cabral e comprometeu-se a devolver valores à Justiça. Ele também é conhecido por seu envolvimento na chamada “farra dos guardanapos”, episódio de 2009 em Paris no qual acusados de corrupção foram fotografados em confraternização usando guardanapos amarrados na cabeça. Além do empresário, o voo transportou parlamentares com foro privilegiado, como o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), o senador Ciro Nogueira (PP-PI), e os deputados federais Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL). A Polícia Federal abriu inquérito após identificar irregularidades na fiscalização das bagagens no desembarque, quando o piloto teria passado por inspeção sem que as malas fossem submetidas ao raio-X. O aeroporto utilizado é conhecido por atender voos executivos, e a PF ainda não determinou a propriedade ou o conteúdo das bagagens. A investigação inicial apura possíveis crimes de prevaricação e facilitação de contrabando ou descaminho, com foco na conduta do auditor fiscal da Receita Federal responsável pela fiscalização no momento, Marco Antônio Canella, que ainda não se manifestou. Com a presença de parlamentares com foro privilegiado, o inquérito foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF) e sorteado para o ministro Alexandre de Moraes, que solicitou parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR). A PGR poderá decidir se mantém o caso no STF, o devolve à primeira instância em São Paulo ou requer mais informações. A reportagem tentou contato com os deputados e senadores envolvidos para esclarecer a relação com Cavendish, mas não obteve respostas até a publicação. O dono da aeronave, Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandin OIG, também estava na lista de passageiros. Ele ganhou notoriedade ao depor na CPI das Bets no Senado, negando envolvimento com plataforma de apostas online investigada pela comissão. O piloto do voo, José Jorge de Oliveira Júnior, em nota, afirmou não se recordar do dia da viagem, mas garantiu que segue procedimentos padrão e que cada passageiro desembarca com seus próprios pertences, assumindo responsabilidade exclusiva por eles em eventuais fiscalizações.
Contexto
Fernando Cavendish foi condenado em 2018 pela Lava Jato do Rio por corrupção envolvendo desvios milionários em contratos públicos. A “farra dos guardanapos” é um episódio emblemático que expôs a corrupção entre empresários e políticos em 2009. A presença de parlamentares com foro privilegiado no voo que teve falha na fiscalização de bagagens motivou a transferência do inquérito para o STF, onde o caso está sob análise do ministro Alexandre de Moraes. O episódio ocorre em meio a investigações sobre irregularidades em voos executivos e possíveis crimes relacionados à fiscalização aduaneira.