
Decisão unânime do Supremo Tribunal Federal mantém alteração nos limites da unidade de conservação para viabilizar ferrovia estratégica ao agronegócio
O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por unanimidade, nesta quinta-feira (23), validar a lei que autorizou a destinação de parte do Parque Nacional do Jamanxim, no Pará, para a construção da Ferrogrão, projeto ferroviário que ligará o Porto de Miritituba (PA) ao município de Sinop (MT). A ação judicial foi movida pelo PSOL, que contestava a alteração dos limites da unidade de conservação.
O STF concluiu o julgamento da ação do PSOL que questionava a lei aprovada para permitir o traçado da Ferrogrão dentro do Parque Nacional do Jamanxim, uma área de proteção integral localizada no Pará. A decisão contou com nove votos favoráveis à manutenção da legislação, rejeitando os argumentos do partido que apontavam irregularidades na origem da lei e impactos ambientais e sociais. A controvérsia surgiu porque a lei excluiu cerca de 862 hectares do parque para viabilizar o projeto ferroviário, que visa melhorar o escoamento da produção agrícola, especialmente milho e soja, do Mato Grosso até o Porto de Miritituba, no Pará.
O relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, destacou que a medida provisória que originou a lei não reduziu efetivamente a área protegida, pois previa compensações ambientais que não foram aprovadas pelo Congresso. Segundo ele, a ferrovia terá 977 km de extensão, dos quais 635 km passam por áreas já impactadas pela rodovia BR-163. Moraes ressaltou ainda que a ferrovia deverá reduzir em 50% as emissões de CO2 em comparação ao transporte rodoviário atual, além de diminuir o número de acidentes nas estradas e promover o desenvolvimento sustentável da região.
“A área afetada representa apenas 0,054% do parque, sendo que 60% dessa área já estava desprovida de vegetação devido à BR-163. Os benefícios ambientais e econômicos superam os impactos, dentro dos parâmetros constitucionais”, afirmou o ministro. O ministro Luís Roberto Barroso, que votou antes de sua aposentadoria, acompanhou o relator e sugeriu que o Executivo possa estabelecer, por decreto, mecanismos para compensar a área suprimida do parque.
O PSOL argumentava que a alteração nos limites da unidade de conservação não poderia ter sido feita por medida provisória e que a ferrovia afetaria direitos indígenas e o meio ambiente. Ambientalistas também criticam o projeto por atravessar uma área de proteção integral. Por outro lado, representantes do agronegócio defendem a Ferrogrão como fundamental para a logística do setor, reduzindo custos e impactos ambientais do transporte rodoviário.
A Ferrogrão é um projeto iniciado na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff, com 933 km de extensão, que conecta o Mato Grosso ao Pará para facilitar o escoamento de grãos pelo Porto de Miritituba. Após o impeachment de Dilma, o governo de Michel Temer incluiu o projeto no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) e editou a medida provisória que alterou os limites do Parque Nacional do Jamanxim para permitir a construção da ferrovia e da duplicação da BR-163, uma das principais rotas do agronegócio brasileiro.
Contexto
O Parque Nacional do Jamanxim, localizado no Pará, é uma unidade de conservação de proteção integral que abriga uma das maiores áreas de floresta tropical preservada na Amazônia. A construção da Ferrogrão, uma ferrovia estratégica para o transporte de grãos do Centro-Oeste até o Norte do Brasil, tem gerado debates entre setores econômicos, ambientalistas e comunidades indígenas. A discussão jurídica sobre a alteração dos limites do parque para viabilizar o projeto envolveu o Supremo Tribunal Federal e resultou em uma decisão que equilibra interesses econômicos e ambientais, considerando compensações e impactos mitigados.